sábado, maio 20, 2006

A Coluna por ... Hugo Alves do blog Amarcord

A Origem da Tragédia

A partir da década de 80 do Século transacto começou a assistir-se, em Portugal, ao fenómeno da massificação dos complexos multiplex, estruturas organizacionais que se caracterizam por ter um número considerável de salas de cinema. Eis a origem da tragédia: paulatinamente, foram desaparecendo salas que marcaram uma época e, pior ainda, o próprio ritual da ida ao cinema foi alterado.


Vieram as pipocas, os refrigerantes e afins, naquilo que mais não é do que uma importação de um hábito norte-americano perfeitamente dispensável. Vimos o santuário que é a sala de cinema invadida por sons perturbantes, que desconcentram e que não ajudam a ver o filme. Transformámos algo que era puro num objecto não identificado, a meio caminho entre a nossa sala de estar e um bar.


Quem vai ao Cinema, o verdadeiro cinéfilo diria eu, vai porque é impelido pela escuridão da sala. Procura abrigo nos mundos que desfilam na tela branca, animando, entristecendo, fazendo rir, pensar… não vai com o intuito de comer ou beber. Ser apaixonado pelo Cinema, pelos filmes, equivale a transformar a própria ida em algo quase sagrado. E, por isso mesmo, não deixará de se considerar um insulto ver alguém a comer ou beber durante a projecção de um filme.


E, como se isto não bastasse, os multiplex trouxeram um efeito ainda mais nefasto: progressivamente, apenas fomos sendo brindados com o cinema comercial norte-americano. O cinema independente, o cinema europeu, o cinema de autor, esses gritos de liberdade contra o jugo de Hollywood viram-se relegados para algumas salas que vão resistindo estoicamente, contra tudo e todos, procurando satisfazer uma imensa minoria silenciosa.


E, assim, cumpre lançar o repto: já que os multiplex conquistaram o seu lugar (em definitivo?), porque não afectarem uma sala ao cinema não hollywoodiano e, se possível, fazerem reposições? Ainda mais um repto: porque não abolir os aditivos alimentares que tanto perturbam o espectador digno desse nome?


Provavelmente, talvez fossem recuperados os 700.000 espectadores que as salas de Cinema perderam. Em vez de criticar consecutivamente os downloads ilegais, talvez seja chegada, também, a hora de pensar para onde quer ir a indústria cinematográfica. Será que deseja apenas gerar a constante desmotivação e alheamento do espectador, fruto da exibição consecutiva de blockbusters que, por via de regra, mais não são do que mais do mesmo, ou, em alternativa, não terão, também, um papel a desempenhar na elevação do nível das fitas que projectam? Basta pensar que, recentemente, filmes como Lost in Translation conheceram um sucesso que, à partida, não seria expectável…


Dito de outro modo, caberá perguntar se um modelo de exibição em que o lucro justifica tudo, também justificará a perda consecutiva de espectadores que, num futuro próximo, poderá vir a redundar na eliminação da sua fonte de receitas: o público.

Hugo Alves

5 Comments:

At maio 21, 2006 4:00 da manhã, Blogger Gustavo H.R. said...

Um tema em pauta nas discussões cinematográficas.
O mesmo vale para o Brasil. É uma situação lamentável e preocupante, e soluções inteligentes a longo prazo devem ser pensadas desde já.

Cumps.

 
At maio 21, 2006 3:00 da tarde, Blogger Dário Ribeiro said...

Apesar e perceber as suas desvantagens e o que significa para certas salas emblemáticas ou um cinema mais alternativo ou os os problemas colaterais derivados dessas sessões, tenho que reconhecer que especificamente aqui em Coimbra os multiplex aumentaram a oferta que era muito escassa nesta cidade, algo que eu sempre defendi que tinha de ser mudado.

 
At maio 21, 2006 7:12 da tarde, Anonymous Roberto Queiroz said...

Hugo, assino embaixo de tudo que você falou. É uma tristeza ver no que estão se transformando os cinemas ao redor do mundo. Pior ainda é ver empresas internacionais como a cinemark e a UCI fazerem o que querem com o espectador (as salas minúsculas, preços exorbitantes, entre outros desaforos). Lembro-me da primeira vez em que fui a um cinema sozinho. Foi mágico, muito mais do que simplesmente assistir um filme em tela grande. A partir daí vieram os clássicos (como E.T, Indiana Jones, Star Wars, Blade Runner, Jornada nas Estrelas, entre tantos outros). Hoje? perdemos tudo isso. Só interessa o dinheiro, o poder. Salvo raríssimas exceções de parcos administradores de pequenas salas. Abraços do crítico da caverna.

 
At maio 21, 2006 8:35 da tarde, Blogger Hugo Alves said...

Caro Dário Ribeiro,

Percebo muito bem esse ponto de vista.

O que eu critico aps multiplex é o facto de, como em Portugal estão sujeitos a um monopólio de distribuição, ser quase obrigatório exibir filmes de má qualidade. Alguém acreditará seriamente que nos EUA só é feito aquilo que vai aparecendo nas salas? Alguém acreditará que na Europa quase não se fazem filmes?

Casos recentes, como o belo "De tanto bater o meu coração parou" provam que há público para outros cinemas, tal como o recentíssimo Tsotsi, ou mesmo o tão falado "Brokeback Mountain", que, até certo ponto, é um regresso ao passado transvestido. Dito de outro modo, é uma história de amor que só tem como particularidade os apaixonados serem dois homens...(e lembre-se que Brokeback Mountain vem de um produtora conotada com cinema independente)

Uma coisa é aumentar a oferta, outra é, perdoe-se-me a violência verbal, estupidificar o público com coisas como "virgem aos 40 anos" ou "dukes of hazard". Daí que lance o repto de, por exemplo, em 8 salas, reservarem uma para outros cinemas ou para reposições. Os êxitos havidos no Nimas (em Lisboa) com "Sunrise a song for two humans" ou "il gattopardo" são a candeia que alumia duas vezes...

Saudações cinéfilas!

 
At dezembro 21, 2007 11:24 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Realmente, não é mais cinema, é área de lazer, praça de alimentação, qualquer coisa, menos aquele atividade cultural de assistir filmes, peço que façam salas para cinéfilos, sem pipoca, sem coca-cola, e principalmente, sem os malditos telefones celulares.

 

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